Quando
ouvimos a palavra “onda” imediatamente nos
lembramos de algo como mostrado na figura ao
lado: uma bela onda quebrando na praia. Mas a
palavra “onda” representa muito mais que isso.
Em Física uma onda é uma sucessão de
perturbações que é capaz de transmitir energia
de um local a outro. É claro que para entender
melhor como isso funciona é preciso antes saber
o que é uma perturbação. E o que é uma
perturbação?
A idéia mais
comum de “perturbação” vem dos seus sinônimos:
“desordem”, “transtorno”. Ou seja, uma
perturbação é algo que “altera o estado normal”
de um ambiente, provocando alguma mudança que
desequilibre esse ambiente. É comum, por
exemplo, dizermos: “pare de perturbar, você está
me tirando do sério!”.
Em
Física, “perturbação” tem um significado muito
parecido: perturbação é uma modificação em algum
ponto de um meio que causa um desequilíbrio de
energia nesse local. Por exemplo, quando um
inseto pousa sobre a superfície tranqüila (em
equilíbrio) de uma poça de água, seu peso, ainda
que pequeno, causa uma pequena deformação na
superfície da poça. Mesmo que esse inseto
pousasse sobre uma folha ou mesmo em um tronco
de árvore, da mesma forma sempre haveria uma
pequeníssima alteração nessa superfície. Em
muitos casos essa alteração é imperceptível.

A forma como
perturbamos um dado meio pode ser muito variada,
pois existem muitas maneiras diferentes de
perturbarmos o ambiente. Por exemplo, quando
colocamos uma colher de metal em uma xícara de
café quente, nós perturbamos tanto o café quanto
a extremidade da colher colocada no café,
alterando sua temperatura. Mas também poderíamos
simplesmente dar uma pequena batida na ponta da
colher e ainda assim estaríamos causando uma
perturbação nela. Até mesmo o som de nossa voz
pode causar perturbações nessa colherinha.
No entanto,
qualquer que seja a forma como perturbamos um
meio, ela sempre envolverá uma troca de energia
com esse meio, e essa energia extra que o meio
recebe pode ou não “se espalhar” pelo meio. Se o
meio absorve a energia e se modifica, de maneira
a assumir uma nova forma de equilíbrio, então a
perturbação não se espalha e não transporta
consigo a energia, mas se o meio não é capaz de
absorver essa energia extra, então ele se livra
dela por meio da propagação da perturbação.
O
tsunami que arrasou muitas regiões da Ásia no
final do ano passado, por exemplo, foi
extremamente devastador por ser uma perturbação
que transportava uma quantidade gigantesca de
energia. Essa energia originou-se em um sismo
(*1) no fundo do oceano e a perturbação causada
na superfície transportou essa energia
espalhando-a por centenas de quilômetros. Quanto
mais próximo da região onde a perturbação se
deu, tanto maior a perturbação e a quantidade de
energia contida em seu movimento.
Mas por que
estou perturbando você, querido leitor, com esse
assunto aparentemente chato e sem importância? O
motivo é simples e perturbador: todos os nossos
sentidos se baseiam na capacidade que
desenvolvemos de detectar essas perturbações
causadas em nosso organismo pelo mundo exterior
a nós! E ainda mais interessante: somos capazes
de associar as perturbações causadas no meio
externo com as perturbações que são causadas em
nós mesmos por esse meio externo! É dessa forma
estranha que tomamos conhecimento de tudo aquilo
que existe “fora de nós mesmos”.
Se
você está lendo esse texto, por exemplo, então
pode ter certeza de que seus olhos estão
recebendo energia luminosa e isso está causando
neles uma perturbação. Essa perturbação, após se
propagar até nosso cérebro, é interpretada como
uma “imagem”. O processo todo é muito complexo,
mas pode ser descrito como uma série muito
grande de perturbações que foram se propagando
desde o local de origem, para onde você está
olhando, até a nossa “consciência”. A luz que
parte do monitor ou do papel para onde você está
olhando agora é uma onda, isto é, uma seqüência
de perturbações eletromagnéticas. Após ser
absorvida em nossa retina ela causa perturbações
químicas diversas e, mesmo já não sendo luz,
transporta energia de um ponto a outro de nosso
cérebro na forma de perturbações químicas e
elétricas.
Se
você estiver ouvindo alguém ler esse texto, da
mesma forma estará recebendo energia
transportada por perturbações mecânicas causadas
no ar e que chamamos, nesse caso, de “som”. A
onda sonora que chega aos nossos ouvidos nada
mais é do que uma seqüência de perturbações
transportadas no ar e que trazem energia até
nossos tímpanos (*2). Do tímpano até o cérebro
novamente temos um processo complexo que envolve
uma seqüência de perturbações mecânicas,
químicas e elétricas e, por fim, acabamos
interpretando essas perturbações como sendo um
“som”.
Se
esse texto estivesse escrito em braile você
poderia “senti-lo” usando seu tato para isso. O
tato também envolve perturbações mecânicas em
nossa pele que disparam outras perturbações
químicas e elétricas e acaba sendo interpretado
por nosso cérebro como a sensação de “toque”.
Infelizmente
ainda não temos uma linguagem de sabores e
odores (*3), mas se tivéssemos talvez fosse
possível compreender um texto interpretando os
aromas e sabores dele e, em ambos os casos,
também temos perturbações causadas em nossa
língua e em nossos narizes que causam outras
perturbações químicas e elétricas e acabam sendo
interpretadas pelo nosso cérebro como odores e
sabores.
O mesmo é
verdadeiro para nossa sensação de quente e frio
(*4) e poderíamos até imaginar uma forma de
escrever um texto “térmico”.
Tudo aquilo
que causa uma perturbação em nossos sistemas
sensoriais, seja ele a retina, a língua, o
ouvido, a pele etc., dispara outras perturbações
e acaba chegando ao cérebro onde é interpretado
de alguma forma (como imagem, som, cheiro,
gosto, tato etc.). É assim, trocando energia com
o meio externo a nós, que obtemos informações
sobre ele e podemos compreendê-lo. As ondas são
as principais responsáveis pelo transporte de
energia e informação de um local a outro e isso
se deve à forma muito especial como elas fazem
esse transporte dessa energia: sem o transporte
conjunto da matéria.
Quando as
ondas necessitam de um meio mecânico para se
propagarem, como o som, nós as chamamos de
”ondas mecânicas” e quando elas também podem se
propagar sem um meio material, como no vácuo,
nós as chamamos de “ondas eletromagnéticas”. Na
verdade também existem ondas que se propagam no
vácuo e que não são ondas eletromagnéticas, como
as ondas gravitacionais (*5), por exemplo.
 |
O som é uma onda mecânica
|
|
 |
A luz é uma onda eletromagnética
|
|
Algumas ondas
são constituídas por uma seqüência regular de
perturbações, isto é, uma seqüência de
perturbações que se repetem em intervalos de
tempo iguais. Nesse caso chamamos a onda de
“periódica”, a duração de cada perturbação
individual chama-se “período da onda” e a
quantidade de perturbações em uma dada unidade
de tempo é chamada de “freqüência” (freqüência e
período são grandezas inversas). As diferentes
cores de luz que somos capazes de ver são ondas
eletromagnéticas de diferentes freqüências, por
exemplo. Assim, quando vemos um arco-íris
estamos vendo ondas eletromagnéticas de
diferentes freqüências (cada cor tem sua
freqüência). Da mesma forma, uma música é uma
seqüência de sons de diferentes freqüências.
A
possibilidade de nosso corpo “detectar” uma onda
e absorver sua energia, interpretando-a de uma
dada maneira, depende da freqüência da onda.
Para o som, por exemplo, nosso ouvido só
consegue “entender” ondas sonoras que chegam nos
nossos tímpanos com freqüências entre 20 Hz
(vinte perturbações por segundo) e 20.000 Hz
(20.000 perturbações por segundo). Freqüências
abaixo de 20 Hz ou acima de 20.000 Hz são
recebidas pelo tímpano, mas as perturbações que
elas nos causam não podem ser traduzidas pelo
nosso cérebro como “sons”. Dizemos então que
esses sons são “inaudíveis”.
Já
para a luz, nossos olhos são capazes de detectar
ondas eletromagnéticas com freqüências entre
430.000.000.000.000 Hz e 750.000.000.000.000 Hz.
Isso mesmo! As ondas eletromagnéticas que somos
capazes de absorver e interpretar como luz
visível têm freqüência da ordem de trilhões de
perturbações por segundo! E não são somente os
nossos olhos que percebem a luz, nossa pele
também é capaz de absorvê-la. Mas em nossa pele
essa luz é absorvida e transformada em
perturbações mecânicas que acabam sendo
interpretadas como “calor”. É por isso que
“esquentamos” quando ficamos expostos ao sol.
Nem todas as
ondas eletromagnéticas podem ser absorvidas por
nosso corpo. As ondas eletromagnéticas na
freqüência do rádio ou da TV, por exemplo,
passam por nós sem serem absorvidas.

É
interessante notar que apesar das ondas
transportarem energia e, portanto, informação,
elas não transportam matéria. Um barquinho no
oceano fica oscilando para cima e para baixo
conforme as ondas passem por ele, mas ele não é
arrastado pelas ondas. Da mesma forma o som
passa pelo ar “sem fazer vento”. O fato de as
ondas transportarem energia e não transportarem
matéria é o que permite que a energia “se
espalhe” facilmente pelo universo.
Outra
característica importante das ondas é o fato de
elas não se moverem como os corpos materiais. Os
corpos materiais possuem inércia (*6), as ondas
não! Uma onda sonora, por exemplo, move-se com
velocidade de aproximadamente 340 m/s no ar, mas
quando essa onda sonora penetra em uma piscina
ela passa a se propagar na água com velocidade
de aproximadamente 1450 m/s! Esse incrível
aumento de 1110 m/s é instantâneo e não requer
nenhuma “força” para “empurrar a onda”. A
velocidade de propagação de uma dada onda
depende apenas do meio onde ela se propaga,
assim, mudando-se as características do meio,
muda-se a velocidade de propagação da onda.
Interessante, não?
E
interessante também é saber que essa mudança na
velocidade de propagação pode causar mudanças na
direção de propagação da onda. Esse fenômeno,
também conhecido como “refração” (*7), é o que
nos permite construir lentes e vários
instrumentos ópticos. Nosso cristalino, por
exemplo, é uma lente na qual ocorre desvio na
direção de propagação da luz de forma que ela
possa se concentrar na retina de maneira a
formar uma imagem nítida do objeto do qual
estamos recebendo a luz. Como você pode ver,
nosso corpo está muito bem adaptado para
trabalhar com as ondas.
Se você não
se convenceu ainda de que as ondas estão por
toda parte e de que não poderíamos existir sem
elas, que tal agora se eu lhe dissesse que você
mesmo é uma onda? Sim, você, eu, o poste, o
computador, a cadeira e qualquer outra coisa que
você possa imaginar, somos todos “ondas”!
Pelo menos
foi a essa conclusão que chegou Louis
Victor Pierre Raymond duque de Broglie
(1892-1987), que em 1924, tomando por base os
trabalhos de Max Karl Ernst Ludwig
Planck (1858-1947) e Albert Einstein
(1879-1955), dentre outros (veja o artigo “Ano
Mundial da Física: e daí?” na seção de links),
concluiu que, assim como a luz apresentava um
comportamento semelhante ao de uma partícula
material em determinadas situações, também as
partículas materiais (e qualquer objeto
material) poderiam se comportar como ondas sob
certas circunstâncias.
|
Max Planck
|
|
|
Albert Einstein
|
|
|
Louis de Broglie
|
|
Essa
conclusão passou então a ser um dos postulados
da Mecânica Quântica e estabelece o que hoje
chamamos de “princípio da dualidade
onda-partícula”. Segundo esse princípio tudo na
natureza apresenta-se ora como onda, ora como
partícula, dependendo apenas do tipo de fenômeno
que estamos observando.
Agora que
você já sabe que tudo nesse nosso mundo pode se
resumir a ondas, que tal deixar de onda e
procurar aprender um pouco mais sobre elas? Na
seção de links há várias sugestões para leitura
e no seu material didático você deparará com as
ondas em várias oportunidades. Não perca essa
onda!