QUÍMICA
DO VINHO

A seguir
apresendo a entrevista com o
enólogo francês: Gilles de Revel. Professor e pesquisador na
Faculté d'OEnologie, na Université Bordeaux 2,
Revel é um dos mais famosos enólogos da atualidade. Talvez
Revel venha para o Brasil: foi convidado para participar de
um comitê de degustadores em um concurso de vinhos em Bento
Gonçalves/RS, ainda neste ano! Nesta entrevista, Revel nos
fala sobre a enologia e sobre a química do vinho.
Quem
é Gilles de Revel?
Revel:// Sou professor e pesquisador na
Faculté d'OEnologie (FAC OEno), na Université Bordeaux 2.
Leciono os temas "Metabolismo" e "Genoma Bacterial", e
também sou responsável pela formação dos alunos com respeito
a fermentação, química do vinho, bactérias para a
femermentação láctica e maloláctica.
Sou formado em licenciatura em Biologia, DEA (mestrado) e
PhD em enologia. Fiz doutorado na FAC OEno, sob o tema "Diaciatilenos
e compostos di-carbonilados e seus produtos na redução do
vinho". Mais tarde, fiz um PosDoc na Escola Superior de
Biotecnologia, UCP, Porto (Portugal). Lá, estudei as
características sensoriais dos vinhos do Porto e
deterioração pelas bactérias lácticas. Atualmente, faço
pesquisas relacionadas às propriedades organolépticas dos
vinhos, produção de compostos olfatativos de alta
perfórmance e as implicações das bactérias.
O objetivo é estudar a importância das bactérias lácticas no
sabor do vinho, e os diferentes metabolismos envolvidos, dos
compostos carbonilados e di-carbonilados, e daqueles que
contém enxofre. Para tanto, utilizamos técnicas
cromatográficas (GC eHPLC acoplados a vários detectores
específicos e MS), mas também investigamos o impacto
organoléptico: temos em nossas mãos aparelhos
olfactométricos e um laboratório de análise sensorial.
Também investigamos a contribuição de moléculas resultantes
destes metabolismos, principalmente, nas alterações de sabor
provocado pelo envelhecimento do vinho. No envelhecimento,
os fenômenos são químicos (e não bioquímicos), e nós
caracterizamos as moléculas formadas a partir da,
essencialmente, cisteína e dos compostos
alfa-di-carbonilados. Estes compostos são heterociclos
idênticos aos encontrados nas reações de Maillard e estamos
procurando mecanismos reacionais compatíveis com as
condições do vinho (baixo pH, baixa temperatura, etc.)
O que é Enologia? Qual é a
contribuição desta ciência para a produção do vinho?
Revel://
Enologia é a ciência do vinho, e é o trabalho de cientistas
especializados nas ciências e tecnologias da uva e do vinho.
Estes cientistas vêm de diversas áreas: química, biologia,
microbiologia e outras disciplinas cujo trabalho permite o
enriquecimento do conhecimento sobre o vinho, seu
desenvolvimento, sua composição e seu condicionamento. O
objetivo prático destas pesquisas é a otimização de um
fenômeno natural no sentido de permitir uma coordenação
efetiva entre estas ciências e suas aplicações.
Quais são as principais conquistas
desde que a ciência entrou no campo da produção do vinho? Os
vinhos estão melhores, agora?
Revel:// Pasteur já havia demonstrado que o
vinho é uma excelente aplicação da ciência desde que,
certamente, a enologia pudesse trazer progressos na obtenção
de vinhos de melhor qualidade, evitando os defeitos
(contaminações por uvas de má qualidade, deterioramento
devido à ação de micro-organismos e contaminantes químicos)
e, principalmente, contribuir para uma melhor compreensão da
origem da qualidade dos vinhos.
Nestes últimos anos, o progesso foi muito significativo,
sobretudo no desenvolvimento de uvas potencialmente
aromáticas e fenólicas e no entendimento dos limites da
técnica e tecnologia. Sem dúvida, os vinhos estão melhores
que outrora, eles sao mais numerosos e, hoje, é possivel se
experimentar um bom vinho tanto num encontro de degustadores
como em uma festa qualquer.
Qual é a importância ou contribuição
da fermentação maloláctica para o sabor do vinho? O que
acontece se este processo é irrelevado na produçao do vinho?
Revel://A fermentação
maloláctica sempre foi um processo natural dos vinhos, mas
muito mal controlada e pouco compreendida. O interesse
principal é simplesmente a desacidificação do vinho
(transformação do ácido malônico em ácido láctico). Se mal
controlada, a atividade da bactéria láctica pode provocar
uma deteriorização pela formação de ácido acético a partir
dos açúcares. Esta fermentação também modifica o aroma do
vinho, devido a síntese de compostos com sabor amanteigados,
como o ácido láctico e outras substancias químicas de
estruturas similares. Outros aromas são intensificados
durante a segunda fermentação, como o de queijo, chocolate e
o defumado. Trabalhos que identificam estes sabores estão em
curso, atualmente, em nosso laboratorio. Nos também
iniciamos pesquisas sobre as consequências da presença
destes compostos nas alterações de sabor provocadas pelo
processo de envelhecimento do vinho. Estudamos as reações
entre estes compostos di-carbonilados provenientes da
fermentação maloláctica e certos amino-ácidos, como a
cisteína, presentes no vinho. Os produtos são heterociclos
sulfonados que apresentam odores interessantes, como de
pipoca, noz moscada, assado e café. Estas são aproximações
dos mecanismos químicos que ocorrem na formação de sabores
durante o envelhecimento.
Quais são os mais importantes
compostos químicos responsáveis pelo aroma e sabor do vinho?
A ciência realmente conhece todos eles?
Revel:// Esta
questão é muito simples... ou muito complexa! Eu acredito
que são as complexas moléculas sulfonadas que são as mais
importantes para o sabor e aroma do vinho. E dez anos de
pesquisa têm confirmado esta opinião.
As moléculas sulfonadas presentes no vinho podem ser
quimicamente muito diversas, geralmente muito reativas e são
percebidas, pelo olfato, mesmo em concentrações muito
pequenas (certamente menores do que 1 nanograma/L), e seus
aromas também são muito diversos. Geralmente, quando se quer
medir a qualidades ou defeitos de um vinho, mede-se a
quantidade de algumas substâncias sulfonadas. Por exemplo:
Qualidades: 4-metil-4-mercaptopentan-2-ona,
dimetil-disulfeto, 2-furanometanotiol, acetil-tiazol,
aceti-tiazolina...
Defeitos: H2S, metionol, etanotiol, benzotiazol...
Estes compostos sulfunados estão presentes nas uvas,
mascarados sob a forma de compostos inodoros, e revelados
pelas fermentações. As bactérias também podem influenciar no
aroma do vinho, assim como contaminantes e, finalmente, a
formação de compostos heterocicliclos mencionados
anteriormente.
Na sua opinião, o que tornou o vinho
na mais famosa bebida em todo o mundo, desde os tempos mais
remotos?
Revel:// Esta
questão é muito interessante... eu penso que o vinho
apreciado por todos é o vinho que exprime o que há de melhor
na riqueza da uva adaptada ao seu terroir (solo) pelo
maior tempo possivel. Estes tipos de vinhos são encontrados
em grande numero em diversas regioes vinicolas da França.
O que faz com que os vinhos Bordeaux
sejam tão conhecidos? Eles realmente são tão bons quanto são
famosos?
Revel:// A questão anterior responde esta
também... o resto é especulação e midia...
O bom vinho é aquele que responde perfeitamente a todos os
auspicios do degustador em uma ocasião particular (local,
tempo, psicologia e fisiologia), e não somente aquilo que
está dentro da garrafa!